O Grande Gatsby e os anos 20.

 

Leonardo DiCaprio como Jay Gatsby.

      O filme a ser trabalhado a seguir intitula-se “The Great Gatsby”, o qual foi dirigido pelo cineasta australiano Baz Luhrmann, com roteiro do americano Craig Pierce. A produção de 2013, estrelada por Leonardo DiCaprio e Tobey Maguire, teve como inspiração o romance de 1925 escrito por F. Scott Fitzgerald (1896-1940), com o mesmo título. Como veremos, a trajetória do protagonista Jay Gatsby, tornou-se um clássico da cultura americana pela sua capacidade de representar o período em que foi escrito.

    No longa-metragem, o enredo se desenrola em meio a atmosfera americana que consagrou os “frenéticos anos 20”. Nele será possível observar as nuances da cultura de consumo, a sensação de prosperidade interminável, além da remodelação dos costumes e a concretização do American Way of Life. Para isso usaremos o capítulo de José Jobson Arruda, “A crise do capitalismo liberal” como base teórica para produzir uma interpretação histórica sobre o filme de 2013. Deixando claro que serão analisados apenas os aspectos que são de relevância histórica.

       O filme começa nos introduzindo a um dos protagonistas, Nick Carraway, cuja perspectiva irá desenvolver a trama. Esse aparece inicialmente no que parece ser uma consulta psiquiátrica, tendo como cenário o “Sanatório Perkins”. Logo somos convidados a notar o laudo médico de Nick, que consta: morbidamente alcoólatra; insônia; ataques de raiva; ansiedade e depressão. Aqui podemos observar a construção da personalidade de Nick já no auge da trajetória, refletindo nos sintomas que assombraram a maioria dos americanos dessa época.

         Em seguida Nick nos apresenta a paisagem que dará fundo e relevância para sua história: a cidade de Nova York no verão de 1922. Como Arruda escreve, “após o término da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos assumiram a hegemonia econômica em escala planetária, passando de país devedor a potência credora no mercado internacional”. A prosperidade americana pós-guerra atingia números absurdos, e a bolsa de valores de Nova York comandava as operações nacionais do capital especulativo.

Nova York.

            Terra de oportunidades, Nova York significava, para os diversos jovens conspirantes a milionários, a chance de prosperar rapidamente. Jovens esses como Nick Carraway, que atraído pela opulência decidiu abandonar a carreira de escritor para trabalhar em Wall Street vendendo ações. Nick muda-se para um simples chalé em West Egg, rico bairro de Long Island, que se localizava vizinho de sua prima, Daisy Buchanan, em East Egg.  A cena em que conhecemos Daisy e seu marido é reveladora por refletir em pontos essenciais da sociedade americana desse período.

         Tom Buchanan, marido de Daisy e velho amigo de Nick é colocado no filme como a própria representação da elite conservadora nos Estados Unidos. De acordo com Arruda, “o conservadorismo provinciano foi uma das marcas registradas dos anos 20 e se expressou fortemente nas manifestações de intolerância política, racial e social”. Tom, diferente dos chamados “novos ricos” era herdeiro de umas das famílias mais abastadas dos E.U.A, e havia alcançando a fama como jogador de polo.

          Em seu primeiro encontro com Nick, Tom deixa claro sua desaprovação quanto essas novas formas de ascensão social. Ele chega a referir-se a eles como “social-climbing, primitive new-money types”, ou seja, alpinistas sociais, novos-ricos primitivos. Tom também tem a convicção de que a civilização está em decadência, e com isso menciona uma obra que chama de “A Ascensão dos Impérios de Cor”. Talvez possamos atribuir aqui uma referência ao livro do eugenista Lothrop Stoddard que escreveu em 1920, The Rising Tide of Color Against White World-Supremacy”.

      Tom tira da leitura um sentido de aviso, de que a supremacia branca deveria tomar cuidado, ou perderia o controle para outras raças. Afirma isso enquanto aponta para um homem negro que está servindo a mesa no fundo do cenário. Fica evidente então, o racismo que estava impregnado na mentalidade das elites conservadoras. Como explica Arruda o mundo do Empire State Building, símbolo do apogeu da civilização americana, é o mesmo que propiciou o reaparecimento da Ku Klux Klan.

       Daisy, por outro lado, parece espelhar o vazio que a vida regrada pelo consumo escondia. Quando comenta com Nick sobre o nascimento de sua filha, Pammy, ela confessa ter chorado quando descobriu que seria uma menina. Daisy havia dito, “fico feliz que seja uma menina, espero que ela seja uma tolinha, pois é o melhor que uma garota pode querer ser nesse mundo, uma linda tolinha”. Quem sabe aqui, possamos apontar uma relação entre a agonia da personagem com a falsa sensação de felicidade mais plena, de erradicação da pobreza e do medo, que se firmou entre os americanos. Pois, como vemos em Arruda, apesar do crédito ilimitado parecer atenuar as diferenças sociais, a riqueza não atingia as diferentes classes da mesma forma.

        Isso nos leva aos chamados “subterrâneos da prosperidade” propostos por Arruda. Como o autor argumenta “por trás da cortina de aparente prosperidade geral escondia-se o verdadeiro cenário de um mundo de misérias e de iniquidades, no qual as populações negras eram o principal protagonista”. O Vale das Cinzas, local em que se segue a narrativa de Nick, exemplifica exatamente esse contraste. Como Nick descreve, o Vale ficava na metade que dividia West Egg e a cidade de Nova York. “Onde o carvão propiciava energia à prospera cidade dourada”, e os trabalhadores se intoxicavam pela poeira, mostrava geograficamente a divisão social na sociedade americana.

O Vale das Cinzas.


            No Vale das Cinzas se inicia o desenrolar da próxima cena que nos deixará por dentro dos segredos e bastidores do conservadorismo americano. No apartamento de Myrtle Wilson, amante de Tom, podemos notar claramente a crítica ao falso moralismo também presente na sociedade americana. O consumo de álcool e drogas combinado com adultério e violência de Tom, provam que havia um afrouxamento das condutas sociais. Até mesmo entre aqueles defensores da decência e dos valores tradicionais.

            Terminado o mistério que envolve a figura de Jay Gatsby, ele é nos apresentado já nos trinta primeiros minutos do filme. As festas na mansão de Gatsby, ambiente onde Nick conhece o protagonista, oferecem vários oportunidade para um olhar histórico. Podemos encontrar nas cenas das festas, os vários elementos que circulam em “liberalização dos costumes e escapismo” de Arruda. “Talvez não seja exagerado chamar de dancing days o período que se inicia com o fim da Primeira Guerra Mundial e se encerra com a Grande depressão de 1929” reflete Arruda.

Pessoas dançando em festa na mansão de Gatsby.


            O
Jazz, ou os famosos Charleston e Foxtrot tão significativos para a época não deixam de ser lembrados nas passagens do filme, principalmente durante as festas. A grande variedade de pessoas, que compunham os eventos de Gatsby todo final de semana, reproduzem alguns personagens da história americana. Entre eles Nick cita, editores bilionários, herdeiras de sangue azul, os milionários do capital especulativo, colunistas de fofoca, até protetores da moralidade. Gente importante e famosa como atrizes de cinema e diretores da Broadway, gângsteres e governadores trocando telefones. Tudo isso sem mencionar os famosos esportistas, mostrando a popularização do esporte na indústria entretenimento, principalmente o boxe e o beisebol.

                Entre as moças da festa vemos a disseminação de um estilo mais solto de se vestir. Como escreve Arruda “...costas desnudas, cintura baixa e seios represados. O cabelo curto veio para ficar. Sapatos adequados para dança eram indispensáveis...”. As estrelas de cinema, constantemente encontradas nessas ocasiões, anunciam a crescente influência de Hollywood, como “fábrica de mitos sintéticos”, na vida dos americanos. De acordo com Arruda “os filmes procuravam estimular essas fantasias, dando-lhe uma alternativa de fuga para a dureza da realidade cotidiana”. Os eventos de Gatsby proporcionavam o mesmo efeito das telas de cinema: um lugar para esquecer dos problemas. 

              Os gângsteres e governadores negociando nos ambientes da mansão de Gatsby, podem exemplificar dois elementos analisados por Arruda. A explosão do crime organizado em decorrência da Lei Seca, e a corrupção inerente ao governo americano. Como explica Arruda, a Lei Seca representou a última tentativa de um policiamento da moralidade frente a remodelação dos costumes. Contudo só serviu para fomentar a criminalidade na população e aumentar o poder dos gângsteres e da máfia. Quanto a corrupção, apesar dos rígidos imperativos morais das elites diligentes, ela parecia ser intrínseca ao sistema capitalista americano.

               A personalidade de Gatsby, assim como a dos demais personagens, expõe muitas características da sociedade americana dos anos 20. Nascido em uma família pobre no interior de Dakota do Norte, Gatsby sempre sonhou com uma vida melhor. Como a maioria dos jovens de sua geração se alistou durante a grande guerra, quando conheceu a Daisy. Contudo, em suas conversas com Nick, ele mostra que tinha uma visão muito clara de seu futuro, ele acreditava que antes de poder se dedicar a Daisy ele deveria cumprir o seu destino alcançando a fortuna e a glória.

            Mais tarde no filme, descobrimos através de Tom, que Gatsby fazia parte dessa parcela dos novos ricos que haviam lucrado ilegalmente com o comércio de bebidas. A concorrência entre os dois personagens pelo amor de Daisy, espelha a disputa por influência entre as antigas elites agrárias conservadoras e as novas elites urbanas liberais. Uma das cenas que mostra claramente essa oposição é o momento em que os dois competem em alta velocidade para chegar no Plaza.

               O automóvel, ícone que simboliza o sucesso financeiro de Tom e Jay, também foi o item mais sintomático do consumismo americano. De acordo com Arruda “o número de veículos que não passava de 8 milhões em 1920, atingiu a casa dos 20 milhões em 1930, puxando a expansão da indústria de base do aço”. O famoso carro amarelo de Gatsby que ele dirige tão velozmente, e o cupê azul de Tom, tão significativos na trama, se solidificaram na memória do filme.

Carros em frente a mansão de Tom e Daisy.

           Vimos com Arruda, que no período entre guerras os E.U.A se coloca como líder mundial no quesito econômico. De acordo com o autor, nesse momento “a crença dos cidadãos – uma sensação cotidianamente reforçada pelos poderes políticos e pela mídia escrita e falada – era de que a prosperidade seria interminável, que nada poderia ameaça-la...”. Tendo crescido nessa atmosfera, Jay confiava piamente que não havia nada que a riqueza material não pudesse lhe garantir, incluindo um futuro com sua amada. Com os olhos enfeitiçados pelas promessas da economia liberal em ascensão Gatsby, assim como a sociedade americana se tornaram cegos frente a verdadeira realidade.

             Se pudéssemos comparar a trajetória de Gatsby com a própria história econômica dos Estados Unidos nos anos 20, veríamos certas semelhanças. Ao acompanhar o desenvolver do filme e o capítulo de Arruda notaríamos o movimento de ascensão e queda. Assim como o protagonista, no auge de sua prosperidade, a economia americana encontra o seu colapso. A crise de 1929, vai representar a recessão do capitalismo liberal alterando os pilares do padrão de vida dos americanos. A esperança de Gatsby mesmo quando as coisas pareciam se encaminhar mal, pode também ser uma analogia a confiança cega dos governantes no mercado autorregulador frente a superprodução. Um dos motivos dos quais sabemos que antecederam o crack da bolsa de Nova York.

Nova York.

           Ao perceber que o dinheiro não pode garantir a Gatsby o amor de Daisy, ou ainda evitar a morte, Nick cai em profunda desilusão. Fitzgerald espelha em Nick, sua decepção com a sociedade de consumo, mais do que isso, passou em seu livro a mensagem de que a riqueza não é tudo. “The Great Gatsby” no seu ano de publicação não teve muito sucesso, porém ao ser republicado em 1935 ele alcança maior número de vendas. Isso pode ser entendido em Arruda, quando esse analisa a repaginação das mensagens que eram trazidas no cinema. Se antes da crise, a moral da história de Gatsby não agradava ao público, o contexto da Grande Depressão proporcionou uma aprovação maior.

 

Referências bibliográficas:

·         ARRUDA, José Jobson. A crise do Capitalismo Liberal. In: REIS FILHO et all. O século XX: O tempo das crises: evoluções, fascismos e guerras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

·         THE GREAT GATSBY. Direção de Baz Luhrmann. Hollywood: Warner Bros. Pictures, 2013.

Por Cibele Raffaelly, 2020.

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